sexta-feira, 17 de junho de 2016

O grito do Abandono

Já li Montesquieu,
Sartre, Camus, Kerouac
Ginsberg, todos, todos
esses
Esses que, de certa forma
gritavam a liberdade
gritavam a independência
Anjos e demônios
dentro de uma mesma pessoa
Eu, tal como Allen
Vi as melhores mentes
da minha geração
enlouquecerem
perdidas nas ruas
perdidas na vida
Eu, leitor voraz
tentei gritar também
tentei correr
tentei sorrir
tentei chorar
nada restou
e tudo acabou
e tudo sumiu
junto comigo
e junto com eles
e junto das ruas
e junto de tudo
Nada sobrou
e nada restou
só talvez um grito
de abandono
onde mesmo rodeado
de tanta gente
e tantos rostos
nada, nada
pode ser feito
ou repetido
ou recomeçado
pelo grito do abandono
eu marcho
eu ando
eu caminho
eu corro
pra lugar nenhum
e sigo
sigo
sigo sempre
andando
sem destino
e sem amor
somente com
o grito do abandono
ao meu lado

sábado, 11 de junho de 2016

Quem é?

Gustavo estava tomando café da manhã quando viu uma xícara atravessar a cozinha voando e se espatifar na parede.
- PUTA MERDA - ele gritou
- GUSTAVO - era Natália, sua esposa - POR QUE VOCÊ TÁ ME TRAINDO?
- QUE TRAINDO, O QUE VOCÊ TÁ FALANDO, VOCÊ TÁ MALUCA? - ele realmente não estava entendendo nada.
- GUSTAVO NÃO MENTE PRA MIM - os tapas que ela estava dando nele doíam em qualquer um que visse a cena.
- CALMA, POR QUE EU ESTARIA TE TRAINDO?
- GUSTAVO, VOCÊ SABE MUITO BEM O POR QUE - ela aumentou a frequência dos tabefes.
- CALMA, CALMA, PERA AÍ. RESPIRA. O que aconteceu?
- NÃO SE FAZ DE IDIOTA - ela estava esperneando e a frequência dos gritos estava chegando a níveis supersônicos.
- CALMA, NATÁLIA. CALMA!
- GUSTAVO, QUEM É ESSA VAGABUNDA NESSA FOTO QUE VOCÊ ESTÁ DANDO BEIJINHO NA BOCHECHA E COLOCANDO LEGENDA DE CORAÇÃO? - ela apontou o celular na cara dele.
- Amor, essa é a minha irmã.
Natália parou. Olhou para o celular. Olhou para Gustavo. Olhou para o celular. Olhou para Gustavo.
- Ah. Então tá tudo bem.
Saiu da cozinha com a maior naturalidade do mundo. Ele continuou lá por mais meia hora, paralisado. Com medo da doida varrida com quem ele dividia o lar.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

O Fabricante de Emoções

Ele acorda. Lê o jornal. A política não o interessa. Ele quer seu café-da-manhã. Vodka, por favor. Não tem? Serve vinho mesmo. Ele sai de casa. Acende o cigarro. Anda, sem rumo. A cidade é cinza. As pessoas não. Ele olha tudo ao seu redor. Um casal apaixonado, um coração aos berros. "Quantas coisas você pode achar nas ruas de São Paulo", ele pensa. Uma criança com fome, um idoso abandonado. Uma mãe super-protetora, um pai ausente. Ele pode voltar pra casa agora, já encontrou o que precisava. Sua matéria prima é o sentir. Ele senta na cadeira, encara a tela, bate os dedos vigorosamente em cada tecla. Derrama tudo que tem e o que não tem naqueles pequenos botões. Ele fabrica emoções a partir dos dedos. Está exausto. Não sobrou nada. Mais uma vodka, por favor. Ele chora, ele sorri, ele se apaixona, ele vê o amor ir embora, ele ri, ele fica com medo. Ele vê em sua tela só o preto e o branco. Esquece, às vezes, porém, que nas suas pequenas manchas pretas num fundo branco estão contidas as emoções mais coloridas que existem.