- Puta merda,
eu não aguento mais brigar com você! – ela disse enquanto saiu em disparada
para a porta
- Calma, vamos
conversar! – ele tentou reparar o dano
A briga tinha
começado por algo completamente besta. A escolha de canais na TV no horário
nobre. Como toda boa briga de casal que se prese o que começou completamente
banal havia se tornado um cenário digno de batalha travada em uma das Guerras
Mundiais. As brigas tinham se tornado cada vez mais comum, quase uma rotina na
vida do casal. Era uma fórmula feita: tinham bons momentos, algo besta
engatilhava uma briga, brigavam feio, tudo voltava ao normal.
Ele tentou
ligar para ela. Não atendeu.
Não havia
muito o que fazer naquela situação. Quando ela ficava brava o lance era esperar
a poeira baixar e tentar conversar sobre o que tinha acontecido. Quando a briga
era mais feia, ela saía para dirigir por entre as ruas da cidade.
Ele estava
sozinho. Pensou na relação. Havia a conhecido quinze anos antes, na faculdade.
Paixão a primeira vista. Passavam horas discutindo as teorias anarquistas de
Bakunim, as poesias de Neruda, Gabriel García Marquez e seus cem anos de
solidão. Viveram ali nos primeiros anos uma paixão intensa, a flor da pele, que
pulsava como um organismo vivo. Mas a vida acontece e o vapor intenso dos
primeiros anos de relacionamento começa a se esvair e os problemas da vida a
dois começam a ter uma presença quase física na vida cotidiana. Mas apesar
disso todas as memórias de viagens, transas, idas ao cinema e ao teatro,
jantares fora, almoços em família, pizzadas com os amigos eram boas demais.
Ele estava
sorrindo. Sorrindo muito. Botou os Beatles para tocar na antiga vitrola da avó.
Decidiu mandar um WhatsApp para ela. Dizia: “Cuidado nas ruas! Quando você
voltar, tranque o portão, feche as janelas, apague a luz e acima de tudo, saiba
que eu te amo”
Ao fim do
disco foi dormir, com nada além de um sorriso no rosto e amor no coração.
——-
Conto livremente inspirado na canção “Quando você voltar” da Legião Urbana
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