segunda-feira, 9 de maio de 2016

Serras de Santos

Acordamos naquele dia, a manhã a princípio estava cinzenta, mas no céu haviam pequenas notas de que o sol iria aparecer dali a algumas horas.
Cláudia, na cozinha, prepara sanduíches de queijo. Na sala, a TV ligada fazia com que a voz de Galvão ecoasse por toda a casa, narrando com uma fluidez de robô todas as curvas da Fórmula 1. Ela grita que está tudo pronto. Dando uma última olhada em uma ultrapassagem, exerço o poder que todo brasileiro queria ter e calo a boca de Galvão quando desligo a TV. Fecho as janelas, caso chova. Cláudia me espera já pronta no carro com tudo que é necessário.
Chegamos finalmente na Avenida Bandeirantes. Trânsito, muito trânsito. O GPS do celular diz que em aproximadamente duas horas chegaremos em Santos.
- Eu falei pra você que devíamos ter saído mais cedo! Mas você quis ver a largada! - me acusa Cláudia.
- Hoje é domingo! Não tinha como saber que teria esse trânsito todo por aqui!
Aumento o volume do carro botando um fim num princípio de discussão. O silêncio entre nós impera. No rádio, a Legião Urbana entoa: nos perderemos entre monstros da nossa própria criação.
Por um instante penso que talvez o casamento tenha sido um monstro da minha própria criação. Minha relação com Cláudia parece desgastada e na minha mente eu tento procurar onde aquela vida do começo do namoro foi parar.
Duas horas de silêncio depois, chegamos em Santos. Cláudia estende uma canga na areia. Numa tentativa de esquecer a quase discussão que tivemos, diz:
- Lembra a primeira vez que viemos aqui?
- Lembro, foi em 85, não? Eu, você, Paulinho, Chico, Pri e Bete, né?
- Isso mesmo. Paulinho, pra variar tava com aquele violão cafonéérrimo dele
- Foi depois do Rock in Rio, não foi?
- Foi! - exclama numa boa retomada de memória - Love of my life, you´ve hurt me! - começa a cantar
Nos levantamos daquele lugar, deixando nossas coisas e andamos de mãos dadas em direção ao mar. Nos beijamos, lembramos de mais algumas coisas e voltamos pra cadeira.
Roubaram nossos calçados e nossas carteiras.
- Eu te falei pra deixarmos no carro, Marcos! Puta que pariu! O que faremos agora?
- Não sei! Você tinha quanto na sua carteira?
- Cinco reais! E você?
- Dez!
- Puta que pariu, Marcos! Se você me escutasse nada disso ia ter acontecido!
Começo a rir. Começo a rir muito.
- Puta que pariu você! Tá rindo por que?
- Porque crescemos! Viramos nossos pais.Somos patéticos!
Mas eu ria, acima de tudo, porque apesar de toda a crise acontecida até aquele momento, estávamos juntos. E não tinha outro lugar que eu queria estar. Por mais que o tempo tivesse passado, ainda via nos olhos dela uma grande paixão por mim. Um carinho enorme. Uma paz interior admirável.
Ela só não podia saber de tudo isso.

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