O ônibus balançava. Muito. Quem anda por São Paulo já está acostumado com a irregularidade das vias da cidade. Naquela manhã, porém, um buraco da Nove de Julho iria a vida dos dois. Ela caiu em cima dele.
- Desculpa, moço! Eu tava distraída e não me segurei, foi mal!
- Não, relaxa! Não tem problema!
Ela deu um sorriso. Ele retribuiu.
"Pelo menos ele foi gentil" - Ela pensou
"Será que eu deveria falar pra Ela sentar no meu lugar?" - Ele se indagou.
- Você pode sentar no meu lugar, se quiser
- Não precisa!
- Tem certeza?
- Tenho!
Mais um pouco de silêncio. Pensamentos a mil.
- Outro dia eu te vi lendo um livro que pareceu muito bonito, qual era?
- Você já me viu?
- Você está sempre aqui, não? - quando terminou a frase, Ele pensou que essa era a cantada mais manjada do mundo
- Estou. Mas nunca te vi. De todo o jeito, era "Grande Sertão: Veredas"
- Guimarães Rosa, né?
- Isso mesmo. Adoro ele.
- Eu também.
****
Os dias foram passando e passando e as conversas no ônibus não era mais suficientes. Marcaram de ir ao cinema. Ela podia escolher o filme, Ele não se importava. Woody Allen, o mais novo. No meio da sessão, Ele segurou a mão dela. Se olharam. Botaram no mundo aquilo que já vinham sentindo.
****
Os anos se passaram e agora eles estavam morando juntos. Todos no ônibus já conheciam os dois. Numa manhã, como aquela primeira, Ele a pediu em casamento no meio da Santo Amaro. Ela aceitou. Estão juntos até hoje.
Não, eles não eram Eduardo e Mônica e a história dos dois não é uma prova irrefutável de que todo mundo tem uma alma gêmea no mundo. É só a prova de que o amor pode nascer em qualquer lugar, a qualquer momento. Até no 6450-10.
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