Era praticamente um ritual dos dois. Assistiam ao Jornal Nacional, a
novela das nove e comiam algo. Ela tomava banho, ele ia logo em seguida.
Deitavam-se na cama. Dormiam feito pedra até as seis da manhã do dia
seguinte.
Aquele dia estava tudo diferente. Deitaram na cama
pontualmente as onze da noite. Ela claramente estava preocupada com
algo. Ele, desatento. Por volta da meia noite, finalmente botaram seus
livros de lado e apagaram a luz. O vento lá fora denunciava que uma boa
chuva chegaria durante a madrugada. Um ar levemente gelado se entranhava
por de baixo das cobertas e causava uma estranha sensação na perna de
ambos.
Ele virou para um lado, virou pro outro, levantou, foi à
cozinha, buscou água, preparou um sanduíche com queijo, o comeu, bebeu
leite morno com Dramin pra ver se o sono vinha, mas nada.
Ela
mudou de lado da cama, rolou, foi ao banheiro, tentou ler mais um pouco,
ligou nos comerciais de venda de anéis da TV a cabo, tentou ouvir
música, sintonizou o rádio, foi atrás do marido, também tomou leite e
depois de inúmeras tentativas o sono finalmente estava vindo. Duas da
manhã.
Às três, acordou. Com os olhos pesados de sono ainda,
passeou o olhar pelo quarto até chegar na poltrona reclinável que ficava
no canto do cômodo e perguntou a ele:
- O que cê tá fazendo ai a essa hora?
E logo ao seu lado na cama, meio encoberto pelos lençóis veio a resposta:
- Mas eu estou aqui.
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